Vol. 1 No. 20251208-1043 (2025)

React2Shell: Análise Aprofundada da Vulnerabilidade no React

Adriano Cansian | adriano.cansian@unesp.br | 08/12/2025


ATUALIZAÇÃO em 11/12/2025:

O valor do EPSS saltou de 13,9% em 08/12/2025 para 76,01% HOJE 11/12/2025.

Com um valor de CVSS 10,0 é fundamental que sejam aplicadas as medidas de resolução imediatamente.


1. Introdução

No início de dezembro de 2025, uma vulnerabilidade de severidade crítica, apelidada de React2Shell, emergiu, abalando a comunidade de desenvolvimento web.

Identificada oficialmente como CVE-2025-55182, trata-se de uma falha de Execução Remota de Código Não Autenticada ou Unauthenticated Remote Code Execution (Unauthenticated RCE) e recebeu a pontuação máxima de 10.0 no Common Vulnerability Scoring System (CVSS), sinalizando um risco extremo para uma vasta gama de aplicações modernas.

Uma Execução Remota de Código Não Autenticada é uma vulnerabilidade que permite a um atacante executar comandos ou código arbitrário em um servidor remoto sem necessidade de possuir credenciais válidas ou autenticação prévia.

Diferentemente de vulnerabilidades que exigem que o invasor esteja logado ou tenha acesso autorizado ao sistema, uma Unauthenticated RCE pode ser explorada por qualquer pessoa com acesso à rede (geralmente a internet), tornando-a extremamente perigosa.

A vulnerabilidade reside no coração dos React Server Components (RSC), uma tecnologia cada vez mais adotada em frameworks populares como Next.js, afetando potencialmente mais de 40% dos principais websites da Internet.

Este artigo oferece uma análise técnica aprofundada da React2Shell, detalhando seu mecanismo de exploração, o impacto que pode causar e as medidas essenciais que as equipes de segurança e desenvolvimento devem tomar para mitigar esta ameaça iminente.


2. O Mecanismo da Exploração: Desserialização Insegura

A React2Shell NÃO é uma vulnerabilidade comum. Sua periculosidade reside na simplicidade de sua exploração.

Um atacante, sem qualquer tipo de autenticação, pode comprometer completamente um servidor vulnerável através de uma única requisição HTTP POST maliciosamente elaborada.

A raiz do problema está na forma como os React Server Components lidam com a desserialização de dados.

Quando um cliente envia uma requisição para um endpoint que utiliza Server Functions, o React transforma os dados recebidos em chamadas de função do lado do servidor.

Durante este processo, a vulnerabilidade permite que um payload manipulado seja desserializado sem as devidas validações de segurança. Isso cria um caminho direto para que o atacante injete e execute código arbitrário com os mesmos privilégios do processo do servidor Node.js, abrindo as portas para um comprometimento total do sistema.


2. Análise de Impacto: As Consequências de uma Exploração Bem-Sucedida

Uma vulnerabilidade de RCE pré-autenticação é o ativo mais cobiçado no arsenal de um agente malicioso. No caso da React2Shell, as consequências de uma exploração bem-sucedida são catastróficas e podem se manifestar de várias formas:

  • Comprometimento Total da Infraestrutura: O atacante obtém controle total sobre o servidor, permitindo acesso irrestrito ao sistema de arquivos, roubo de credenciais e a instalação de backdoors para acesso persistente.
  • Exfiltração de Dados Sensíveis: Uma vez dentro do sistema, o invasor pode acessar e exfiltrar informações críticas, como bancos de dados de clientes, segredos de aplicação (chaves de API, tokens), propriedade intelectual e lógica de negócios.
  • Movimento Lateral na Rede: O servidor comprometido torna-se um ponto de pivô, a partir do qual o atacante pode lançar novas ofensivas contra outros sistemas internos, bancos de dados e recursos na nuvem, expandindo o alcance do ataque por toda a organização.
  • Ataques de Ransomware e Interrupção de Negócios: Com controle total, os atacantes podem implantar ransomware, criptografando dados vitais e exigindo um resgate, ou simplesmente interromper as operações, causando perdas financeiras e danos à reputação.


2. Descrição Técnica

A vulnerabilidade decorre de desserialização insegura no protocolo Flight, mecanismo responsável por transportar estruturas dos Server Components entre cliente e servidor.

Ao receber um payload malicioso, o servidor interpreta dados arbitrários como referências de função, o que permite execução remota de código com privilégios equivalentes ao processo Node.js.

Condições de exploração

  • Não exige autenticação;
  • Não exige cookie, API key ou token;
  • Pode ser explorada por qualquer atacante com acesso ao endpoint RSC;
  • Vetor principal: HTTP POST com conteúdo Flight manipulado.

Impacto técnico

  • Execução remota de código (RCE);
  • Execução arbitrária de processos no host ou container;
  • Exfiltração de dados sensíveis;
  • Movimento lateral;
  • Possível comprometimento total de infraestrutura (quando mal configurada).

3. Sistemas Afetados

3.1 React e bibliotecas centrais

Conforme registros do NVD:

PacoteVersões vulneráveisVersões corrigidas
react-server-dom-webpack19.0.0 a 19.2.019.0.1+, 19.1.2+, 19.2.1+
react-server-dom-parcel19.0.0 a 19.2.019.0.1+, 19.1.2+, 19.2.1+
react-server-dom-turbopack19.0.0 a 19.2.019.0.1+, 19.1.2+, 19.2.1+

3.2 Frameworks afetados

  • Next.js versões 15.x e 16.x;
    Associado adicionalmente ao CVE-2025-66478, conforme documentação CISA/NVD.
  • React Router com RSC;
  • Expo;
  • RedwoodJS;
  • Waku;
  • Plugins de integração RSC para Vite, Parcel e Turbopack.

4. Vetor de Ataque e Indicadores de Exploração

4.1 Vetor primário

POST /<endpoint-rsc>  
Content-Type: application/json  
Payload malformado contendo blocos Flight manipulados

4.2 Indicadores observáveis

  • Logs de erro do Flight referentes a parsing inesperado;
  • Picos súbitos de CPU em processos Node.js;
  • Tentativas de criação de processos via child_process.spawn/exec;
  • Comunicação egressa para hosts desconhecidos
  • Criação de artefatos suspeitos em /tmp em containers Linux

4.3 Atividade Maliciosa Confirmada

Organizações de segurança reportaram:

  • Scanners em larga escala buscando endpoints RSC;
  • Explorações automatizadas visando Next.js exposto;
  • Comprometimento de clusters Kubernetes negligentemente isolados;
  • Uso da vulnerabilidade para implantação de webshells e reverse shells.

5. Mitigação

5.1 Patching obrigatório

Aplicar imediatamente as versões corrigidas dos pacotes React RSC e atualizar aplicações Next.js para releases não vulneráveis.


5.2 Controles compensatórios (temporários)

  • Regras de WAF para bloquear payloads suspeitos do protocolo Flight;
  • Monitoramento agressivo de tráfego de egressão;
  • Habilitar logs completos de chamadas RSC;
  • Bloquear criação de processos filho por Node.js quando possível;
  • Reforçar políticas noexec em diretórios temporários.

5.3 Defesa em profundidade

  • Execução do Node.js com mínimo privilégio;
  • Isolamento adequado de containers e namespaces;
  • Mecanismos RASP como camada adicional;

6. Avaliação de Risco

A vulnerabilidade é considerada Crítica, nível máximo no CVSS 10.0, devido a:

  • Exploração ativa confirmada globalmente
  • Ausência de barreiras de autenticação
  • Impacto direto em aplicações amplamente adotadas (React/Next.js)
  • Possibilidade de comprometimento total do ambiente

É altamente recomendável priorizar a correção em ambientes expostos à internet.

6.1. Sobre o EPSS e CVVS Score para React2Shel

MétricaValor
Score Inicial0.46%
Score Atual13.86% (8 de dezembro de 2025)
76,01% (atualizado em 11/12/2025)
PercentilEm atualização contínua

O Problema: Uma Discrepância Crítica

Existe uma divergência significativa entre o CVSS (10.0 – Crítico) e o EPSS (13.86%), que revela uma limitação importante dos sistemas de scoring automatizados.

É importante entender que o EPSS é um “indicador retardado” (lagging indicator).

Embora tenha subido de 0.46% para 13.86% desde o início da publicação do CVE, ainda está muito abaixo do que os níveis reais de exploração justificariam, porque:

  1. Exploração Ativa em Andamento: Grupos de ameaças vinculados à China já foram observados explorando a vulnerabilidade (AWS)
  2. Liderança em Bug Bounty: É o #1 CVE mais explorado na plataforma HackerOne
  3. Remediação Acelerada: Organizações estão remediando em menos de um dia em média
  4. Escala Massiva: Mais de 12 milhões de sites potencialmente vulneráveis.

O Que Isso Significa

O EPSS demonstra que sistemas de scoring automatizados podem não acompanhar o ritmo de exploração em tempo real. Isso ressalta a importância de:

  • Não depender apenas de scores automatizados para priorização de vulnerabilidades críticas.
  • Usar feedback em tempo real de comunidades de segurança (bug bounty, threat intelligence).
  • Considerar o contexto operacional além dos scores numéricos

Referências:

  1. Portal informativo sobre a vulnerabilidade: https://react2shell.com/
  2. NVD / NIST – CVE-2025-55182
    https://nvd.nist.gov/vuln/detail/CVE-2025-55182
  3. CVE.org – CVE Record CVE-2025-55182
    https://www.cve.org/CVERecord?id=CVE-2025-55182
  4. NVD / NIST – CVE-2025-66478 (Next.js)
    https://nvd.nist.gov/vuln/detail/CVE-2025-66478
  5. React Team. React Server Components Documentation.
    https://react.dev/reference/react-server
  6. React Flight Protocol (repositório oficial).
    https://github.com/facebook/react/tree/main/packages/react-server
  7. Vercel. Next.js App Router and React Server Components.
    https://nextjs.org/docs/app/building-your-application/rendering/server-components
  8. MITRE. CWE-502: Deserialization of Untrusted Data
    https://cwe.mitre.org/data/definitions/502.html
  9. OWASP. Deserialization of Untrusted Data
    https://owasp.org/www-community/vulnerabilities/Deserialization_of_untrusted_data

Vol. 1 No. 20250929-963 (2025)

HybridPetya: A Ameaça Silenciosa que Neutraliza o Secure Boot

Adriano Cansian | adriano.cansian@unesp.br | 29/09/2025

Resumo Executivo

Este alerta de segurança aborda a descoberta do HybridPetya, uma nova variante de ransomware que representa uma evolução significativa nas ameaças de firmware. Identificado em fevereiro de 2025, ele combina características dos notórios malwares Petya e NotPetya, que causaram estragos entre 2016 e 2017. A principal inovação do HybridPetya é sua capacidade de comprometer sistemas modernos baseados em UEFI, explorando a vulnerabilidade CVE-2024-7344 para contornar o Secure Boot em máquinas que não aplicaram as atualizações de revogação (dbx) da Microsoft de janeiro de 2025.

Embora ainda não haja evidências de campanhas ativas, a sofisticação técnica do HybridPetya exige atenção e preparação por parte dos profissionais de segurança.

Análise Técnica do HybridPetya

O HybridPetya, assim como seus predecessores, tem como alvo a Master File Table (MFT) em partições NTFS, tornando os arquivos do sistema operacional inacessíveis. No entanto, sua abordagem é mais sofisticada, utilizando um bootkit UEFI para garantir sua persistência e execução antes mesmo do carregamento do sistema operacional.

O Bootkit UEFI e o Processo de Criptografia

A principal inovação do HybridPetya é a sua capacidade de instalar uma aplicação EFI maliciosa na EFI System Partition (ESP). Este bootkit é responsável por orquestrar todo o processo de ataque. Uma vez executado, ele utiliza o algoritmo de criptografia Salsa20 para criptografar a MFT. Durante este processo, o malware exibe uma falsa mensagem do CHKDSK, o que leva o usuário a acreditar que o sistema está realizando uma verificação de disco, quando na verdade seus arquivos estão sendo criptografados.

O processo de ataque pode ser resumido da seguinte forma:

  1. Instalação: O malware instala sua aplicação EFI maliciosa na ESP.
  2. Configuração: O bootkit verifica um arquivo de configuração para determinar o estado da criptografia (pronto para criptografar, já criptografado ou resgate pago).
  3. Criptografia: Se o sistema ainda não foi comprometido, o bootkit extrai a chave de criptografia Salsa20 e inicia a criptografia da MFT.
  4. Falsa Verificação: Durante a criptografia, uma mensagem falsa do CHKDSK é exibida para enganar o usuário.
  5. Reinicialização: Após a conclusão da criptografia, o sistema é reiniciado e a nota de resgate é exibida.

Exploração da Vulnerabilidade CVE-2024-7344

Uma das variantes analisadas do HybridPetya explora a vulnerabilidade CVE-2024-7344 para contornar o UEFI Secure Boot. Esta falha de segurança reside em uma aplicação UEFI assinada pela Microsoft, chamada “Reloader“, que permite a execução de código não assinado a partir de um arquivo chamado cloak.dat. O HybridPetya explora essa falha para executar seu bootkit UEFI mesmo em sistemas com o Secure Boot ativado, desde que não tenham recebido as atualizações de revogação da Microsoft.

Diferenças em Relação ao Petya e NotPetya

Apesar das semelhanças, o HybridPetya apresenta diferenças cruciais em relação aos seus predecessores:

CaracterísticaPetya (2016)NotPetya (2017)HybridPetya (2025)
PropósitoRansomwareDestrutivo (wiper)Ransomware
RecuperaçãoPossívelImpossívelPossível
AlvoMBR e MFTMBR e MFTMFT (via UEFI)
UEFINãoNãoSim
PropagaçãoLimitadaAgressiva (rede)Limitada (até o momento)

É importante notar que, ao contrário do NotPetya, o HybridPetya foi projetado para funcionar como um ransomware tradicional. O algoritmo de geração de chaves, inspirado no proof-of-concept RedPetyaOpenSSL, permite que o operador do malware reconstrua a chave de descriptografia, tornando a recuperação dos dados possível mediante o pagamento do resgate.

Implicações de Segurança e Mitigação

O surgimento do HybridPetya reforça a importância da segurança de firmware e da necessidade de manter os sistemas atualizados. As seguintes medidas são recomendadas para mitigar o risco de ataques como este:

  • Atualizações de Firmware e SO: Manter o firmware UEFI e o sistema operacional sempre atualizados é a principal linha de defesa.
  • Atualizações de Revogação (dbx): Garantir que as atualizações de revogação do Secure Boot da Microsoft sejam aplicadas para bloquear a execução de binários vulneráveis conhecidos, como o explorado pela CVE-2024-7344.
  • Monitoramento da ESP: Monitorar a EFI System Partition em busca de modificações não autorizadas pode ajudar a detectar a instalação de bootkits UEFI.
  • Controle de Acesso: Restringir o acesso de gravação à ESP para usuários e processos não privilegiados.

Conclusão

O HybridPetya representa uma nova e sofisticada ameaça no cenário de ransomware, demonstrando a contínua evolução das técnicas de ataque para o nível de firmware. Embora ainda não tenha sido observado em campanhas ativas, seu potencial de dano é significativo, especialmente em ambientes que não seguem as melhores práticas de segurança de firmware. A comunidade de segurança deve permanecer vigilante e proativa na implementação de medidas de defesa para se proteger contra esta e outras ameaças emergentes.


Referências


Apêndice – Petya e NotPetya: Características Técnicas Confirmadas

Petya Original (2016)

Descoberta: Março de 2016.

Alvo: Master Boot Record (MBR) e Master File Table (MFT).

Propósito: Ransomware legítimo com possibilidade de recuperação.

Criptografia: Salsa20 para MFT.

NotPetya (2017)

Data do Ataque: 27 de junho de 2017

Vetor Inicial: Software de contabilidade ucraniano M.E.Doc

Propagação: EternalBlue, EternalRomance, PsExec, WMI, Mimikatz.

Alvo: MBR e MFT (similar ao Petya).

Diferencial: Destrutivo – sem possibilidade real de recuperação.

Impacto: Mais de $10 bilhões em danos globais

Atribuição: Origem Militar Russa (GRU) – confirmado pelos governos EUA e Reino Unido.