O Diário do Analista
Vol. 2 (abr. 2026)  |  Pp. 330–334  |  ISSN 3086-6103

Alerta: MikroTik RouterOS entra no KEV da CISA com exploração ativa da cadeia MikroTrick

Resumo executivo

O CERT Polska confirmou exploração ativa de vulnerabilidades críticas no MikroTik RouterOS, concatenadas em uma cadeia de ataque apelidada de “MikroTrick”, que permite tomada completa de dispositivos sem autenticação quando o SSH está acessível a partir de redes públicas. Ataques estão em andamento desde pelo menos 02/09/2026,  um dia antes da liberação dos patches pela MikroTik em 03/09/2026.

A cadeia explora CVE-2026-67276 (SSH authentication bypass, CVSS 9.2) + CVE-2026-86060 (escalação de privilégios via SSH, CVSS 9.2). Uma terceira falha, CVE-2026-67277 (memory disclosure/DoS no bandwidth-test, CVSS 8.8), amplia o risco e foi observada em campanhas reais. Estima-se que exista algo como 122.500 roteadores MikroTik com SSH exposto à internet.

Status no CISA KEV: até a publicação deste alerta (10/09/2026), nem todas as CVEs MikroTrick já foram adicionadas ao catálogo KEV da CISA (no momento apenas a CVE-2026-67277 e CVE-2026-86060). A urgência operacional, no entanto, já está estabelecida pela confirmação do CERT Polska. Não aguarde a listagem no KEV para adotar as medidas recomendadas


Ficha técnica — Cadeia MikroTrick e CVEs relacionadas

CVE Descrição CWE CVSS Versões afetadas Papel na cadeia
CVE-2026-67276 SSH authentication bypass — RouterOS não comparava a chave pública RSA completa (verificava tipo e módulo, mas omitia o expoente). Atacante que conhece o módulo RSA público de um usuário autorizado pode forjar uma chave com expoente=1 e abrir sessão SSH sem a chave privada. CWE-347 9.2 (crítico) 7.24 < 7.24.2; 7.9 < 7.23.4 MikroTrick — etapa 1 (bypass de autenticação)
CVE-2026-86060 Escalação de privilégios via SSH — usernames começando com caractere proibido alcançam um helper de login legado que interpreta -N como “ler política de um file descriptor N”, permitindo alterar a máscara de política da sessão para admin completo. CWE-88 9.2 (crítico) 7.24 < 7.24.2; 7.0.0 < 7.23.4; 6.0.0 < 6.49.21 MikroTrick — etapa 2 (escalação para admin)
CVE-2026-67277 Memory disclosure e DoS no serviço bandwidth-test (btest) — aceita conexão “related” antes da autenticação do primário; com random-data=false, transmite dados não inicializados de buffers do kernel. Integer underflow separado causa saída fragmentada anormalmente grande e pode reiniciar o kernel. CWE-306 8.8 (alto) 7.24 < 7.24.2; 7.0.0 < 7.23.4; 6.0.0 < 6.49.21 Amplia risco (leak de memória, DoS)

Nota sobre escopo de versões: a CVE-2026-67276 afeta apenas RouterOS 7.x (a partir de 7.9). A CVE-2026-86060 e a CVE-2026-67277 afetam tanto RouterOS 7.x quanto 6.x. A cadeia MikroTrick completa (bypass + escalação) portanto requer RouterOS 7.x com SSH acessível.

Outras CVEs corrigidas no mesmo release

O CERT Polska divulgou 6 CVEs no total, todas corrigidas nas mesmas versões. As três adicionais são:

CVE Descrição CWE Componente
CVE-2026-67279 SSH rekey antes da autenticação permite que cliente não autenticado abra sessão e escreva/sobrescreva arquivos no namespace gerenciado do RouterOS (incluindo arquivos de configuração e suporte). CWE-841 SSH server
CVE-2026-67278 RouterOS aceita assinaturas RSA/PKCS#1 v1.5 malformadas em validação X.509. Como o trust store inclui uma CA root com e=3, permite forja de certificados intermediários e impersonação de servidores TLS. CWE-347 X.509 / TLS
CVE-2026-67281 File-read não autenticado no WebFig via /jsproxy — ponteiro principal não inicializado permite escapar do namespace do WebFig e ler arquivos de configuração contendo credenciais. CWE-824 WebFig

Timeline

02/09/2026 Início dos ataques ativos observados pelo CERT Polska (zero-day).
03/09/2026 MikroTik libera patches (7.24.2, 7.23.4, 6.49.21, 7.25beta3) com notas genéricas (“important security update”). Primeira vez na história que a MikroTik enviou push notification via app móvel.
05/09/2026 CERT Polska publica advisory com CVE IDs, descrições técnicas e confirmação de exploração ativa.
06–08/09/2026 Análises da comunidade (diffs binários de 7.23.3 vs 7.23.4) reconstroem detalhes técnicos; PoC público da cadeia MikroTrick torna-se disponível.
10/09/2026 Publicação deste alerta. Entrada no CISA KEV das CVE-2026-67277 e CVE-2026-86060. Falta CVE-2026-67276 no KEV


O que fazer agora (prioridade alta)

1) Atualizar imediatamente

Atualize para as versões corrigidas:

  • 7.24.2 (stable)
  • 7.23.4 (long-term)
  • 6.49.21 (long-term)
  • 7.25beta3 (dev/testing)

Atenção: aplicar o patch previne exploração futura, mas não remove implantes já instalados (contas criadas, scripts agendados, regras de firewall/NAT inseridas pelos atacantes). Qualquer dispositivo com indícios de comprometimento deve ser restaurado a configuração de fábrica e reconfigurado a partir de configuração limpa verificada.

2) Reduzir superfície de ataque

Bloqueie o acesso aos serviços de gerenciamento a partir da internet, permitindo apenas redes de gestão/VPN confiáveis. Aplique para:

  • SSH (TCP 22)
  • WWW / WWW-SSL (WebFig)
  • API / API-SSL
  • bandwidth-test (TCP/UDP 2000)

Enquanto o patch não puder ser aplicado, não inicie conexões TLS a partir do dispositivo nem use os clientes SSH embutidos (/system ssh e /system ssh-exec), especialmente quando a comunicação passa por redes não confiáveis — a CVE-2026-67278 (forja de certificados X.509) pode ser explorada nesse vetor.

3) Verificar comprometimento

Após aplicar o patch, execute as seguintes verificações:

# Verificar marcador "Flagged" (mecanismo de detecção adicionado pelo patch)
/system/device-mode/print

# Revisar logs para entradas de comprometimento conhecidas
/log/print where topics~"critical"

# Procurar contas não autorizadas (IoCs conhecidos: "ops" e "-2")
/user/print

# Verificar scripts agendados suspeitos
/system/scheduler/print

# Verificar regras de firewall/NAT inseridas pelos atacantes
/ip/firewall/filter/print
/ip/firewall/nat/print

# Verificar proxies e túneis desconhecidos
/ip/proxy/print
/interface/print

Importante: o mecanismo “Flagged” introduzido pelo patch escaneia a configuração na inicialização buscando sinais conhecidos de alterações não autorizadas, desabilita entradas suspeitas e registra um aviso crítico. No entanto, conforme o próprio CERT Polska, a ausência do marcador não é prova de que o dispositivo está seguro — o mecanismo detecta apenas um subconjunto de rastros.

4) Resposta a comprometimento confirmado

Se o marcador “Flagged“, logs, contas desconhecidas ou quaisquer outros indícios apontarem para comprometimento:

  • Isolar o equipamento da rede.
  • Preservar logs e configuração antes do reset (para análise forense).
  • Restaurar configuração de fábrica e reconfigurar a partir de configuração limpa e verificada — não restaure backup de configuração completo de um dispositivo potencialmente comprometido.
  • Rotacionar todas as credenciais: senhas admin, chaves SSH, senhas VPN, tokens, e quaisquer segredos armazenados no dispositivo.
  • Não limpar o marcador “Flagged” antes de concluir a análise e preservar o material.

Indicadores de comprometimento (IOC)

Entradas de log (padrão observado pelo CERT Polska)

login failure for user -2 from <ip> via ssh
user <name> added by ssh:-2@<ip>

Contas de usuário

Username Descrição
ops Conta com privilégios elevados criada pelos atacantes após exploração bem-sucedida.
-2 Username malformado utilizado como IoC de campo da CVE-2026-86060 (caractere proibido no helper de login SSH).

Endereços IP de ataque

IP Atividade
82.192.72.4 Origem dos ataques bem-sucedidos confirmados, incluindo criação da conta “ops”. Ativo desde pelo menos 02/09/2026.
103.102.31.18 Utilizado em tentativas de exploração da cadeia MikroTrick.

A presença de qualquer um desses artefatos indica tentativa de exploração e deve ser investigada imediatamente. Ao mesmo tempo, a ausência desses rastros não descarta atividade não autorizada.


Contexto adicional

As vulnerabilidades foram descobertas por Sławomir Rozbicki do CERT Polska, utilizando os modelos GPT-5.5-cyber e GPT-5.6-sol como parte de um ambiente de pesquisa baseado em agentes, dentro do programa Government and Trust Agency Collaboration (GTAC) da OpenAI. Os modelos automatizaram a criação e restauração de máquinas de laboratório, análise de RFCs e código binário, e construção de scripts de confirmação — mas cada hipótese exigiu validação em RouterOS real, testes de controle negativo e avaliação de impacto pelos pesquisadores.


Referências

Este alerta será atualizado caso as demais CVEs MikroTrick sejam adicionadas ao catálogo KEV da CISA.

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